
Pirilâmpado “Ninguém pode pensar, sentir ou agir Senão a partir da própria alienação...” R. D. Laing Se quero sobreviver preciso esquecer que meu corpo é uma carcaça. Uso as palavras para recompor minha vida exangue. Tento compreender o absurdo da existencialização. Prezo a morte e leio escombros na angústia-vívere. Tenho em mim a decadência-preço de Existir. Não fui aparelhado espiritualmente para suportar a vida. Minha infância pobre é o mundo que trago às costas como uma lesma com carcova. Sou um renunciante à vida que respira a tristeza no caos. Amo os silêncios porque deles tiro filés de santas palavras. Caibo em despertencimentos, desabandonos e desespelhos com a consciência saturada. Minha palavra é a minha voz como o estertor de um vagido. Existir dói e faço doer os engenhos e açudes das palavras. Uso as esporas das palavras em verso e prosa para refazer a vida que me deram como uma sentença-castigo. Se eu escrever ansiedades perdoem o inexato corte de pelica da dor em mim lavrada. Não tenho fórmulas para escapar ileso e não estou impune. Sou um bebedor e comedor de verbos feito um Pirilâmpado. Dou ciência de mim aos efêmeros insensíveis como potes de vísceras. Não me leiam se não querem se assustar de serem a si mesmos revelados como carcaças em espelhos turvos. Sou por acaso aqui e ali uma espécie de rebrilux. Os gemidos de noiteadeiro falam por mim, me descrevem. Palavras me são remédios. Correm no meu sangue. Regurgito. Como se adubos de palavras em ordinárias bateias de granizo. Sou inventariante de angústias humanas, escondo-me em bibliotecas E bebo de lanhos de meu próprio sangue letral Envenenando-me da dura e triste carcaça Sobrevivencial. -0- Silas Correa Leite, Itararé-SP E-mail: poesilas@terra.com.br
Escrito por artistasdeitarare às 16h11
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 Epitáfio Conversando com meu epitáfio, no sonho Quero saber como foi que morri, se doeu Quero saber o que senti, qual foi último suspiro E se fui feliz no fim, qual a cotação final. Conversando com meu epitáfio, a tumba fria Eu ali nada sabendo das dobras espaciais Parecia vivo, mas estava à beira da lápide Com meu nome, uma data não identificável Conversando com meu epitáfio, chorei muito Nunca mais minha mãe, minha musa, irmãos Apenas eu ali, e aquela radiação vindo de dentro De uma lágrima infinita pontuando minha paz Conversando com minha lápide, vi meu pai O bendito reencontro tão sonhado, ali, o céu Na pedra um estojo - fora dela a alma livre E os meus ancestrais me recebendo vencedor Conversando com meu íntimo liberto, vi A lápide, a terra, e eu muito além da vida Muito além do fim, resgatado da dor de viver Com minha familia cósmica entrei na Luz! -0- Silas Correa Leite E-mail: poesilas@terra.com.br
Escrito por artistasdeitarare às 21h23
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